QUARESMA
O período quaresmal, iniciado na quarta-feira de cinzas, nos faz relembrar e reacender a chama da fé que em nós foi depositada por Jesus Cristo, especialmente pela graça do batismo. Aliás: a quaresma em si nos faz relembrar diversas outras coisas, com o seu simbolismo referente ao numero quarenta. Esse foi o período que durou o dilúvio. Igualmente, por quarenta anos os Israelitas vagaram no deserto, após a saída do cativeiro egípcio.
Moisés jejuou por quarenta dias e quarenta noites, no Sinai, após o que, recebeu as Tábuas da Lei. O profeta Elias também permaneceu esse mesmo período em jejum. A palavra Quaresma vem do latim quadragésima e designa o período de quarenta dias anteriores à celebração da Páscoa Cristã. Jesus Cristo jejuou durante quarenta dias e quarenta noites no deserto. É um período propicio à reflexão, a penitencia, à conversão espiritual. Tempo de mensuração; tempo em que somos convocados a avaliar, cada vez mais, a maneira como estamos vivendo a nossa vida, tendo como parâmetro a mensagem evangélica de Jesus Cristo.
Necessário se faz, portanto, a reflexão; o recomeço. Na verdade, a vida em conformidade com a mensagem salvífica de Jesus Cristo, deve ser vivida em constante balanço! Em constante avaliação, para verificarmos se estamos sendo coerentes com o que Cristo plantou nos nossos corações e com o que praticamos no dia a dia. O período é um convite à oração, ao jejum (à abstinência de tudo aquilo que nos escraviza) e à caridade. Julgo, portanto, necessário centrar esse breve comentário sobre duas passagens bíblicas que parecem, ao meu ver, duas colunas balizadoras. A primeira é um trecho do livro de Gênesis no qual Jacó exorta os seus a respeito de ídolos estranhos: “Gênesis capítulo 35; 1 - Depois disse Deus a Jacó: Levanta-te, sobe a Betel, e habita ali; e faze ali um altar ao Deus que te apareceu, quando fugiste da face de Esaú teu irmão. 2-Então disse Jacó à sua família, e a todos os que com ele estavam: Tirai os deuses estranhos, que há no meio de vós, e purificai-vos, e mudai as vossas vestes. 3- E levantemo-nos, e subamos a Betel; e ali farei um altar ao Deus que me respondeu no dia da minha angústia, e que foi comigo no caminho que tenho andado. 4- Então deram a Jacó todos os deuses estranhos, que tinham em suas mãos, e as arrecadas que estavam em suas orelhas; e Jacó os escondeu debaixo do carvalho que está junto a Siquém.
Isso nos faz refletir acerca dos ídolos estranhos. No nosso tempo de hoje, somos diuturnamente saturados com influências do mundo, as quais, se não tomamos cuidado, nos engolfam. Se não vejamos: O comércio, subsidiado pela mídia, quer nos impor tipos de roupas, modos de nos comportar, aparelhos tecnológicos muitas vezes desnecessários, espetáculos vazios (tais como os famosos Pânico na TV, BBB8, Faustão, novelas) e outras coisas mais, cuja lista é interminável. Que ganho temos, intrinsecamente, se o nosso celular pode filmar, fotografar, ver televisão, acessar a internet, escrever, armazenar livros e livros… se malmente queremos apenas falar algum momento com outra pessoa!!!! Mas a propaganda praticamente nos obriga a adquirir o último modelo, que faz tudo isso que foi citado e ainda “lava, torce e passa roupa…..!!!(brincadeira!!), mas o que importa mesmo é que apenas permita a comunicação com outrem.
Somos cada vez mais escravizados pela ditadura da moda. Usam-se trajes, ou adereços a eles, que se pensássemos melhor, jamais usaríamos. O que dizer de certas calças que nem são calças, nem são bermudas nem são shorts!!!??? As famosas calças tipo “pescador”…. ahahaha!!! Que todo povo quer usar, ridiculamente!!! O que dizer da famosa moda, passageira como toda moda, de se usar a pochete, na cintura, mas na parte de trás do corpo…!!! Gente: obediência, dependencia a ídolos estranhos!!!! Alienação. Isso sim é que é alienação!!!!! Por que é tão difícil para o homem moderno, do século XXI, dizer NÃO a essa imposição toda!!!!!! Por que não se dá um grito de independência, um grito de liberdade, um corte de laços a toda essa escravidão subcultural!!!??
Por que uma adesão tranqüila e pacifica a uma vida dócil, humana, cristã, adesão a ELE, que é manso, é sempre mal vista!!!???? Porque os instrumentos de massificação e adormecimento da mente, usados pela humanidade, pela cultura relativista consumista objetivam escravizar e alienar os incautos, conduzidos como gado, aos matadouros do espírito.
Procuremos nos ater agora na segunda passagem, que eu citarei. Refere-se à segunda carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 5 versículo 17: “Se alguém está em Cristo, nova criatura é. As coisas velhas já passaram, e eis que tudo se fez novo”. Diga-se de passagem, que essa frase de São Paulo, é pronunciada embasada no evangelho de Jesus Cristo, segundo João: “Em verdade, em verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 53-56).
Portanto aquele que está em Cristo é nova criatura. Criatura que deitou fora os ídolos estranhos, os desejos que escravizam, as vaidades fúteis, as coisas passageiras que chegam com o breve aroma do mundo, mas que se evaporam rapidamente, não deixando marcas, raizes. Já a Cruz de Cristo sim!! Essa, marca indelevelmente o coração. Podemos andar durante muito tempo no vale da sombra da morte. Mas um dia a Luz que vem da Cruz, nos atinge e aquele coração cansado, se rende ao Amor de Cristo. E nesse momento a frase de Paulo aos gálatas (Gal. 2:20) se ergue de maneira insofismável: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.”
Percebem como as citações se entrelaçam: Se Cristo vive em mim, conforme Paulo adverte aos gálatas e no evangelho de Cristo, segundo João, ELE, diz que quem come da carne DELE e bebe do sangue DELE permanece NELE e ELE em nós, nós não podemos viver, após essa graça, da mesma maneira que anteriormente. Por ELE fomos resgatados e libertos da escravidão.
A quaresma, portanto é tempo de conversão, tempo de crucificação, tempo de sepultar cada vez mais o velho homem e viver a graça concedida por Cristo. É tempo de celebrar a ação da Cruz de Cristo na nossa vida. É tempo de aceitar e dizer sim ao projeto de Deus. É tempo de se entregar ao propósito divino. Deus nos criou e nos quer junto Dele. Pela ação do mal nos afastamos Dele. Mas o sacrifício de Jesus Cristo na Cruz nos resgatou. Quaresma é tempo de aceitarmos o fato que há mais de dois mil anos, o Verbo se fez Carne. Cristo Palavra de Deus. Verbo que por obra e graça do Espírito Santo encarnou no Seio Virginal de Maria Santíssima. É tempo de renovarmos a fé e nos rendermos a Ele, que após quarenta dias e quarenta noites, sendo tentado por Satanás, sofreu a paixão, morreu e ressuscitou.
Quando Jesus Cristo, estando crucificado e próximo a morrer, disse que estava tudo consumado, entregou ao Pai, o Seu Espírito, morreu na sua natureza humana. Mas ao terceiro dia, ressuscitou, vencendo a morte. Derrubou as colunas de sustentação do reino sombrio de satanás. O demônio foi vencido, com a mesma natureza com que havia obtido uma “vitória” no Paraíso. Com a morte e ressurreição de Cristo, a morte em si foi vencida. E as trevas não prevaleceram jamais, após isso.
Quaresma é tempo de preparação para celebrar a vitória da vida sobre as trevas da morte. Cristo, Nossa Páscoa, foi imolado. Que nós possamos cada vez mais nos afastar do fermento da malicia, da perdição, do pecado, da maldade e nos tornemos pães ázimos para celebrar a Páscoa do Senhor. Que possamos dizer, como Paulo aos Coríntios (1ª Cor 5, 7-8): “ 7- Purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. 8-Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães não fermentados de pureza e de verdade.” E celebrar verdadeiramente uma vida nova em abundancia de fé, esperança e caridade.